quinta-feira, outubro 26, 2006

O Paradoxo da "Ciência Policial da Religião"

O último informativo da PUC MINAS (Belo Horizonte, edição 277, set 2006) traz uma reportagem especial sobre ciência e fé, por ocasião da instalação da Pastoral na Universidade. Começa com a entrevista a Dom Joaquim Mol, vice reitor, para quem "houve uma incompreensão histórica em se achar que a ciência e a fé respondiam à mesma pergunta [...] A pergunta da ciência é "como eu existo?" E a pergunta da fé é "que sentido tem a minha existência"? Outro entrevistado, Paulo Agostinho, professor de Cultura Religiosa na PUC - foi professor da minha esposa - sustenta posição semelhante. A reportagem traz também informações sobre a Pastoral e sobre o curso de Ciências da Religião.

Ainda Fatos e Valores?

À primeira vista, parece fazer sentido a distinção: a ciência lida com "fatos", e a fé com "valores". Mas eu não posso ver um avanço significativo no diálogo entre a religião e a ciência enquanto o debate continua sequestrado pela divisão kantiana, na origem, entre fatos sem sentido e sentido sem fatos (ou quase). A verdade é que a fé envolve conhecimentos que tem incidência direta sobre a interpretação dos fatos, a ponto de torná-los em fatos diferentes.

De todo modo, é uma guinada muito interessante essa. Embora evangélico, sempre me senti bastante incomodado pelo fato de os católicos saírem da PUC muito menos católicos, e muito mais ateístas ou agnósticos! Já não era sem tempo - se bem que não posso dizer até que ponto as mudanças refletem um interesse pastoral local ou a ênfase positiva e mais conservadora de Ratzinger no campo das relações entre fé, razão, e ciência.

Ciência (Combativa?) da Religião

Uma coluna na página 10, no entanto, me chamou a atenção de modo especial. Intitulada "Religião como objeto científico", pretendia explicar o papel das ciências da religião no universo da PUC, e a justificativa foi curiosíssima:

" 'O que nos diferencia da teologia é que, para nós, a religião é o objeto. E precisamos avançar na investigação científica para poder combater, por exemplo, o fundamentalismo' explica Flávio Senra, coordenador do programa [...] 'não podemos fechar os olhos para o fato de que cresce uma instância conservadora de princípios na sociedade. Nós que somos leigos, cientistas, estudiosos, precisamos assumir o discurso da explicação religiosa. A explicação religiosa apenas nas mãos dos fanáticos religiosos é como uma bomba-relógio', alerta Senra."

Na verdade, faz muito sentido. O crescimento do fundamentalismo islâmico, pondo em perigo a segurança mundial, merece resposta séria e corajosa. Mas este não é, evidentemente, o problema aqui no Brasil; tenho a impressão de que Senra se refere ao fundamentalismo cristão, em suas formas católica e evangélica. Entretanto, não há nada parecido com o fundamentalismo islâmico por essas terras, do ponto de vista da violência e do totalitarismo. Mesmo o fundamentalismo norte-americano, que tanto influenciou o evangelismo brasileiro, tem características profundamente individualistas, oriundas da Reforma Radical, em suas formas pacifistas, e do puritanismo inglês.

Talvez Senra esteja se referindo ao "conservadorismo de príncípios" na sociedade. Ora, se ele se refere ao conservadorismo católico, isto é realmente um problema; a reportagem expondo a natureza e finalidade da pastoral universitária parece pender em uma direção bastante conservadora! Mais provavelmente, ele se refere ao conservadorismo descentralizado (ou sem controle papal) que se vê na comunidade evangélica.

A linguagem bélica de Senra é que surpreende. "Combater", "bomba-relógio". Talvez seja mesmo necessário combater o fundamentalismo evangélico; mas é no mínimo intrigante que um programa científico universitário seja definido nesses termos. Ou não. No último congresso da SOTER, em Belo Horizonte, a mesa redonda sobre Religião e Ciência, coordenada por uma equipe da PUC de São Paulo definiu a sua perspectiva nos mesmos termos. Isso não parece mesmo nem um pouco ecumênico. Não; é mesmo paradoxal, que aqueles interessados em superar o fundamentalismo se tornem, de repente, tão parecidos com Ratzinger.

Ciência (Iluminista?) da Religião: O Paradoxo Brasileiro

Há, na atualidade, um grande movimento internacional que busca reconectar religião e ciência e, especificamente, teologia e ciências naturais. Este movimento conta, principalmente, com teólogos, filósofos e cientistas da natureza, na maioria físicos e químicos. A participação de psicólogos, cientistas políticos, cientistas sociais, e cientistas da religião ainda é bem pequena.

No Brasil, que ainda não acordou para essa realidade, tenho presenciado um movimento distinto, que nos ajuda a entender as palavras de Senra. Há uma luta, em parte política, em parte epistemológica, para traçar os limites entre as Ciências da Religião e a Teologia, no Brasil. O líder do movimento para separar os dois campos, por aqui, é o Dr. Frank Usarski, da PUC de São Paulo, no que é seguido pelas outras PUCs e, em parte, pelo Depto de Ciências da Religião da UFJF - se bem que vários professores em Juiz de Fora são teólogos.

Por outro lado, na UMESP, o Dr. Etienne Alfred Higuet - meu orientador - defende a viabilidade do diálogo, incluindo a teologia (em uma forma não-confessional, e hermenêutica) entre as ciências da religião. Finalmente, o Depto de Ciências da Religião da Mackenzie discute a possibilidade de uma Ciência da Religião Confessional (reformada)!

A necessidade de ganhar um "lugar ao sol" para as Ciências da Religião, no contexto Brasileiro, criou a exigência de distinguí-las da teologia, e de iniciar um movimento contrário àquele que se desenha no cenário internacional, de reaproximação. Poderíamos dizer, talvez, que o estudo científico da religião é a última estação de desembarque de uma forma não-hermenêutica e objetificante de ciência que, agora, entra em crise e inicia a reaproximação da teologia. Era de se esperar, neste contexto, que as ciências da religião se empenhassem por um diálogo com a teologia, mas o atraso histórico está criando uma instância iluminista em um contexto pós-iluminista.

Policiamento Científico do Sagrado?

Temos, pois, uma forma de Ciência da Religião bastante moderna - em plena "pós-modernidade" (será?) cuja função é, nas palavras de John Milbank, "policiar o sagrado". O policiamento segue o padrão típico da modernidade: a redução crítica e a naturalização. Mais do que isso, o policiamento tem um interesse político e social que transcende o interesse científico imediato: vigiar aquelas formas irracionais e bárbaras de religiosidade que possam pôr em perigo a divisão moderna entre saber científico e sentido religioso, que sustenta contenção dos religiosos em suas gaiolas dominicais.

Mas o que dizer contra isso? Se há uma ambiguidade fundamental em todos os empreendimentos humanos, não seria este o caso, também da religião? Se ela representa risco, não seria corretíssimo vigiá-la? Sem dúvida. Não posso ver problema nisso.

Exceto na medida em que não temos uma instância científica semelhante para policiar a secularidade. Ninguém policia a secularidade; mas dela se originaram as piores catástrofes políticas do século XX, ainda não igualadas pela religião. A ciência da religião poderia cumprir tal papel, se adotasse um conceito muito mais amplo de religião, e se voltasse para os insights da teologia, como os encontramos em Paul Tillich, Jacques Ellul ou Herman Dooyeweerd. Mas é claro que ela não pode fazer isso, na medida em que apenas objetifica a religião.

O problema são as anomalias advindas dessa restrição voluntária do campo de visão. Recentemente, pouco antes de apresentar uma comunicação sobre Religião e Ciência na Semana de Estudos de Religião da UMESP, assisti a uma palestra na qual o comunicador alegou que o fundamentalismo religioso protestante norte americano (Bush) seria a causa principal da violenta reação islâmica. Eu objetei apontando o fato de que o conflito com o Islã já era um problema social em toda a Europa antes de Bush, e que diversas rusgas com os muçulmanos não tem absolutamente nenhuma relação com o protestantismo americano - vide a "Crise das Charges", e as recentes declarações de Bento XVI. Obviamente, toda a análise não passava de uma ilusão de ótica, gerada por um standpoint secularista e, diga-se de passagem, de uma grande má-vontade para com a religião. A verdade, muito bem sabida pelos especialistas em política internacional, é que o conflito do Islã se dá com o Ocidente Secular, não com o "fundamentalismo religioso americano".

Segue-se que, para não cair em um mero policiamento acrítico do sagrado - acrítico sobre as suas próprias conexões tácitas com projetos humanos seculares e secularizantes - as ciências da religião deveriam iniciar seu diálogo com a teologia imediatamente, ao invés de adiá-lo para daqui há duzentos anos, e esforçar-se por entrar na grande conversa contemporânea sobre as relações entre a religião e a ciência.

Em suma, as Ciências da Religião precisam deixar a estratégia de objetificar a religião, e entrar em um diálogo real com ela, permitindo-se ser compreendidas também teologicamente, pela religião; e se queremos que o fundamentalismo entregue suas armas totalistas pelo diálogo, precisamos baixar as armas cientificistas. Afinal, como o disse o Prof. Paulo Agostinho,

"Há um fundamentalismo científico, bélico, econômico. Precisamos ter uma ciência que dialogue com a religião"

Parodiando a sua frase, eu diria que há um fundamentalismo secular por trás da Ciência policial da Religião. O que precisamos, hoje, não é de uma campanha contra o fundamentalismo religioso, mas de uma Ciência da Religião que dialogue com a Religião.

2 comentários:

Daniel Feitoza disse...

Guilherme, a leitura do seu artigo, indicado pelo amigo Franklin Ferreira, foi gratificante para mim. Estou inscrito na seleção do curso de mestrado de uma das universidades mencionadas no artigo e fiquei feliz em saber que o diálogo com a teologia no âmbito dos cursos de Ciência da Religião é uma possibilidade/necessidade.
Lamentavelmente, no Brasil, não apenas os cursos de Ciência da Religião, mas também os cursos de Teologia enveredaram pelo caminho do cientificismo fundamentalista. Curso teologia num renomado seminário pseudo-evangélico-confessional e, tenho visto muitos colegas saindo de lá muito menos evangélicos, e muito mais ateístas ou agnósticos.

Guilherme Carvalho disse...

De fato, Daniel, o cientificismo no tratamento da religião e da teologia hoje, no Brasil, é enorme. Tenho encontrado gente muito mais positiva para com as afirmações clássicas do cristianismo entre cientistas da natureza do que entre os cientistas da religião...

Dá pra trabalhar com teologia, mas só se for com história ou com uma abordagem hermenêutica. Ainda está para surgir um lugar em que possa ocorrer o diálogo respeitoso entre teologia evangélica clássica e ciência moderna (da religião, inclusive).

abr,

Guilherme