terça-feira, março 06, 2007

Comentários ao filme "Quem somos nós"

Caros leitores,
meu irmão Elildo Jr, ecologista, postou uma crítica interessante do filme "Quem somos nós", que estamos reproduzindo aqui.
Prezados,
Esta mensagem é um comentário que fiz ao filme "Quem somos nós" (What the bleep dowe know?). Não sei a que gênero classifica-lo, acho que ele pode ser como propaganda de religião de auto-ajuda-new- age, ou como comédia pastelão. Seja como for, seguem abaixo alguns comentários para quem assistiu oupretende assistir. Resolvi colocar por escrito, assim quem quiser,pode questionar minha opinião no todo ou em parte. Afinal, não tenho amínima pretensão de ser o dono da verdade. Estes comentários são o resultado de uma rápida análise no filme. Creio que existem muitos outros erros que poderiam ser apontados, masa preguiça me impede de procurar.
Para começar, afirmo sem rodeios: o filme não se ajusta aos fatos e não tem coerência interna. Em outras palavras, extrapola ou distorce oconhecimento científico e histórico, além de estar cheio de contradições. Se ficasse só nisso, até que dava pra deixar passar. Mas fica a impressão de que há uma intenção deliberada de enganar o expectador. Ao intercalar, com ar de documentário, entrevistas de supostas autoridades, explicações de experimentos científicos, efeitos especiais e o enredo meio deslocado de uma fotógrafa surda e neurótica que aparentemente encontra a paz interior ao descobrir as aplicações não convencionais da física quântica, o filme mistura verdade e mentira, fato e especulação, etc. Os mais simplórios não percebem a trapaça e caem fundo na toca do coelho. O gato passa por lebre.
E onde está a trapaça? Começa logo de cara. Um noticiário descreve a guerra histórica entre ciência e religião. No início, ciência e religião andavam juntas, com sacerdotes-cientistas, deuses das ciências e coisas do gênero. Quando o cristianismo (eca!) se tornou hegemônico, a ciência foi sufocada, mas vede! Contemplai! Ela se libertou dos grilhões e revidou! E depois de muita luta, ciência e religião acenam para uma trégua. Que lindo! Mas essa caricatura simplesmente não corresponde aos fatos.
A cultura científica não é um fenômeno universal que surgiu naturalmente em várias civilizações. O fato indiscutível é que a ciência tal como a conhecemos, com experimentos sistemáticos, registro rigoroso dasobservações, formulação matemática, etc., só surgiu uma vez e em um só lugar: na Europa ocidental cristianizada. É claro que vários fatores contribuíram simultaneamente para o seu surgimento, mas o cristianismo, longe de ser um impedimento, foi de importância central. A cosmovisão cristã (particularmente a reformada) permitiu e impulsionou o surgimento do empreendimento científico (quem duvida confira, por exemplo "A religião e o surgimento da ciência moderna", de R. Hooykaas, Editora Universidade de Brasília, 1988). Admito que a ciência poderia em teoria surgir em uma civilização não cristã, mas o fato é que isso nunca aconteceu.
Depois, tentam trapacear nas entrevistas. A identidade dos entrevistados não é mostrada durante o filme, o que dá a falsa impressão de que todos são autoridades em física quântica. Mas quando o filme acaba, descobrimos que, entre uns poucos cientistas de verdade, estão gurus, místicos e pseudocientistas. É a famosa estratégia de apelar para as autoridades. Pessoas comuns têm profundo respeito por autoridades, especialmente se for um assunto sobre o qual nada entendem. Então os entrevistados podem falar as maiores abobrinhas (o que de fato eles fazem todo o tempo), aproveitando que o expectador está psicologicamente propenso a aceitar. Isso ainda é exacerbado pelo fato de que no filme os picaretas se alternam com os cientistas de verdade, num samba do spin doido.
Detalhe: uma rápida internetada nos mostra que pelo menos um dos entrevistados afirmou, posteriormente, que foi traído pelos produtores do filme, que editaram indevidamente suas declarações(http://en.wikipedia.org/wiki/David_Albert). E um dos entrevistadosque mais aparecem, um tal de Ramtha, é um espírito guerreiro que viveu há 35 mil anos atrás! (confira emhttp://ramtha.com/html/aboutus/aboutus.stm#Ramtha). A física quântica é mesmo surpreendente!
O golpe continua na apresentação dos experimentos científicos. Ao intercalar experimentos científicos clássicos com experimentos pseudocientíficos, sem fazer nenhuma distinção entre eles, o filme induz os menos críticos a pensar que todos têm a mesma validade. Portanto, o experimento das duas fendas (que comprovou a dualidadepartícula-onda do elétron) e o japonês que com pensamentos de paz faz cristais de água mais bonitinhos parecem pertencer à mesma categoria, pelo menos para os desavisados. Mesmo quando se tratam de experimentos científicos verdadeiros, o filme extrapola ou distorce as conclusões dos mesmos na maior cara depau. Os saltos lógicos são incríveis!
Por exemplo, partindo do experimento das duas fendas (que demonstrou a dualidade partícula-onda dos elétrons e o efeito do observador na observação), eles concluem que a consciência é que cria a realidade! Para chegar a esta conclusão eles passam por alguns passos intermediários. Como é de se esperar, os passos incluem falatório sem sentido (usado a todo momento) e o uso de premissas infundadas ou claramente erradas (por exemplo, que o mundo macroscópico se comportada mesma forma que o subatômico). Depois, somos apresentados aos conceitos de superposição e entrelaçamento. A superposição afirma que existe um universo de possibilidades, e nós podemos escolher a que mais nos interessa. Isso é uma extrapolação da constatação de que a posição de um elétron não pode ser conhecida previamente, senão como uma probabilidade. Mas não significa que existem universos paralelos, muito menos que podemos escolher conscientemente entre eles.
Já o entrelaçamento mostra que a separação dos objetos é ilusão. Tudo está entrelaçado, portanto podemos manipular objetos distantes, ler pensamentos, enfim, isso explica todos aqueles fenômenos paranormais. Mas há uma contradição aqui: se, como o filme afirma, tudo que existe no universo está entrelaçado, não há justificativa para pensar que nós somos exceção. Se tudo está entrelaçado, o comportamento de cada partícula (ou onda, ou partícula-onda, ou o diabo a quatro) é condicionado pelo comportamento de todas as outras partículas do universo. Portanto, não existe liberdade de ação: uma engrenagem em umgrande mecanismo não tem o livre arbítrio de girar para onde quiser. Ainda assim, um dos entrevistados afirma que, de alguma forma misteriosa, pela estrutura complexa de nossas redes neurais ou algo assim, nós temos livre arbítrio e podemos escolher dentre as possibilidades! Ou seja, ele se contradiz na maior cara de pau e passa correndo para o próximo tema, na esperança de que ninguém perceba a trapaça.
Mas vamos supor, por um momento, que não existe contradição alguma e que cada consciência é livre e pode escolher dentre as infinitas possibilidades possíveis. Mas, espere um momento! Se duas consciências distintas escolherem possibilidades opostas, o que acontece? Elas se anulam? Ganha a mais forte? As duas acontecem simultaneamente? A coisa fica ainda mais complicada se considerarmos que existem zilhões deconsciências livres. Temos as consciências dos outros humanos, dos animais e, segundo nossa amiga Ramtha, existem ainda as consciências do Universo Rosa, do Universo K... Com tantas consciências competindo e escolhendo entre as infinitas possibilidades, como é possível controlar o resultado de qualquer coisa? Voltamos à situação inicial, onde não temos controle de nada!
Suponho que a concorrência de consciências não deve ser tão grande, pois, de acordo com o filme, nem todos utilizam o potencial de escolher conscientemente entre as infinitas possibilidades. E porquenão utilizam? De acordo com o filme, a culpa é das religiões malvadas (especialmente o famigerado cristianismo) , que se alimentam de nossa insegurança e nos aprisionam ao impor conceitos sobre certo, errado e de julgamento divino. Isso nos impede de escolher o que bem entendermos, além de ser uma idéia ultrajante, afinal, como se pode possível ofender a Deus, se tudo está unido? Na verdade, cada um de nós é um Deus em potencial (não vou nem comentar o fato de que, se não existe certo nem errado, não existe motivo para nosso amigo ficar ultrajado com a idéia "existe certo e errado", afinal, esta é apenas mais uma dentre as infinitas idéias possíveis e igualmente válidas. A não ser que nosso amigo abra uma exceção nesse caso e classifique essa idéia como errada).
Aqui vemos mais uma contradição. Pois em diversos momentos no filme vemos a utilização do conceito de certo e errado, bom e mal, e até de bonito e feio! Não disseram que pensamentos de amor e paz fazem cristais de água mais bonitos? Mas o que é amor, o que é paz, o que é beleza, senão em contraste com seus opostos? O sim é o descuido do não. Sem perceber a contradição evidente, o filme prega que amor é melhor que ódio, paz é melhor que conflito, ao mesmo tempo em que afirma não existirem certo e errado, melhor ou pior, mas apenas infinitas possibilidades igualmente válidas. Ou seja, nossos amigos não são capazes de levar a sério suas próprias afirmações. Continuam pensando numa matriz de certo e errado absolutos, ao mesmo tempo em que consideram essa idéia "ultrajante".
Não vou discutir o tema de viagem no tempo para não me estender muito. Ironicamente, esses picaretas tentam arregimentar o apoio científico para uma filosofia que destrói a validade da própria ciência. Afinal, se o mundo físico não é uma realidade objetiva que está lá fora, mas sim uma criação fluida de nossa mente, como poderia existir a ciência moderna, com observações, experimentos controlados, modelagens e previsões? Se a filosofia proposta pelo filme fosse nosso ponto departida, a ciência tal como a conhecemos JAMAIS teria surgido.
Enfim, o filme é uma fraude.
Abraço,
Elildo Carvalho Jr

2 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Guilherme Carvalho

Gostaria de ver um debate sério sobre as possiveis causas do aquecimento global.

Renato Ulisses de Souza

Michelli Haro disse...

Ufa!!! Até que enfim alguém que pensa que o filme é um absurdo!!!!

Totalmente contraditório.

Se para os que habitam neste planeta não existessem ciência do que é certo e errado, nem gostaria de saber a onde esse mundo poderia parar.(vamos tirar as leis para ver o que acontece!)

ridiculo quando falam não existe o que é certo ou errado quando falam que nem todos utilizam o potencial de escolha, e o pior, entre as infinitas possibilidades.

Nunca ví ninguém neste mundo escolher entre o bem e o bem. E se você escolhe entre um bem, é porque o outro bem anterior já não era tão bom e se não era tão bom então seria opção errada.

Depois no filme querem brincar de ser Deus e falando que todos nós somos "deuses" (ridículo).

Refrexão do dia:
O homem pode conserta, destuir, refazer e criar um avião, um prédio....Mas não é capaz de fazer a àgua e nem um pássaro.
O Criador nos deu matérias para criar, mas não somos O Criador, somos criaturas e erdamos o dom de criar do Criador.-Livro: Somos o que pensamos.

Bjs e parabéns pelo blog.